domingo, 2 de outubro de 2011

Notícias do dia...

                   Hoje, passando os olhos por um jornal de circulação estadual li algumas reportagens que refletem questões de  gênero. Uma delas intitulada "Professora têm de socorrer mães" remete-nos a postagem anterior neste blog, referente à profissional do magistério e suas funções na escola, que ultrapassam as questões de ensino e aprendizagem, sendo-lhes exigido um papel que compete à família, às mães, ao espaço privado destinado apenas às mulheres. No primeiro parágrafo, também é colocada a questão da dupla jornada de trabalho assumida pelas mulheres.

Devido à rotina atribulada, com muitas horas de trabalho por dia, muitas mães deixam crianças em período integral na creche e pedem ajuda a professoras para colocar limites nos filhos. Outra função que a escola vem exercendo é deixar a mãe que não tem tempo atenta às fases de desenvolvimento da criança, como mostrar a hora certa de tirar a fralda ou a chupeta, por exemplo.

                  Em outro trecho, uma mãe  que trabalha o dia inteiro e deixa os filhos em período integral na escola diz: "Procuro sempre ajuda das professoras e da direção da escola, quando tenho alguma dúvida, pois confio muito nelas. Enfim.... além de professoras, devem ser as "tias", "a segunda mãe", cabendo-lhes mais uma vez o papel de cuidadoras.
                 Continuando minha leitura matinal, tento passar rapidamente pela seção "Polícia", porém algo me chama a atenção: "Mulher é expulsa de casa com os três filhos.", "Professor mata universitária e leva corpo para delegacia", "Professora denuncia marido por agressão", "Filhas também apanham" e "Mães expulsam filhas viciadas". Em duas páginas vê-se a mulher enquanto vítima de agressões e de vulnerabilidades sociais e culturais. Termino com a fala do agressor ( o marido ) de uma professora, que tenta justificar seu ato:

Ela tem muito ciúme de mim e sempre me agride verbalmente. Eu não posso nem sair de casa que ela fala que eu a estou traindo. Perdi a cabeça e só apertei o pescoço dela para que ela parasse de gritar comigo.

                     O   "SÓ  apertei o pescoço dela"  já diz tudo....

GÊNERO E EDUCAÇÃO

De acordo com Heilbon, Araújo & Barreto, gênero pode ser conceituado como:


[...] construções e expectativas sociais sustentadas em relação aos  homens     e às     mulheres. Em outras palavras, gênero diz respeito ao modo como a sociedade   constrói representações sobre ser homem e ser mulher e pressupõe que sejam naturalmente estabelecidas. Desde pequenos, educamos os meninos para agirem de uma determinada forma e as meninas de outra. ( HEILBORN, ARAÚJO & BARRETO, 2010, p. 13, módulo 2 )

Cemin (2003) conceitua gênero como a construção cultural e simbólica das relações entre homens e mulheres, indicando que não existem atribuições naturais para homens e mulheres que sejam fundadas biologicamente e, sim, atribuições sociais, ou seja, papéis: tarefas e valores considerados pertinentes em cada sociedade às pessoas de cada sexo.

Em relação à profissão docente, atualmente, o papel da professora vai além da mediação do processo de construção do conhecimento do (a) aluno (a), ampliando-se a missão da profissional da educação a fim de garantir uma articulação satisfatória entre escola e comunidade. O que vemos é que a professora, além de ensinar, deve participar da gestão e do planejamento escolares, o que significa uma dedicação mais ampla, que se estende às famílias e à comunidade, assumindo o papel também de cuidadora e de “tia” dos (as) alunos (as), papeis relacionados ao gênero feminino.

Diante desse contexto, encontramos professoras desmotivadas, exaustas emocionalmente devido às pressões da profissão docente e da conciliação entre o trabalho e os cuidados com o lar e a família, além de apresentarem uma série de queixas de saúde, o que provoca o absenteísmo e afastamento do trabalho como um mecanismo de defesa. Assim, pode-se também verificar uma maior ocorrência de determinadas queixas de saúde e doenças em mulheres docentes (depressão, enxaquecas, problemas nas cordas vocais), tendo em vista que a docência nas séries iniciais do Ensino Fundamental é marcadamente feminina. De acordo com Heilbon, Araújo & Barreto,

O modo como cada cultura constrói o gênero irá definir um determinado padrão de organização das representações e das práticas sociais no mundo público (rua) e na vida privada (casa), estabelecendo lugares distintos para homens e mulheres e uma dinâmica peculiar entre ambos. Transformações societárias vêm tornando cada vez menos expressivo o modelo tradicional de família no qual a mulher se ocupa exclusivamente da casa, e o homem, do provimento material. Embora as mulheres tenham conquistado expressivo espaço no mercado de trabalho, a participação dos homens nas decisões e nas obrigações referentes à vida doméstica não se faz na mesma proporção, deixando às mulheres a difícil tarefa de conciliar família e emprego. Vemos de forma preponderante o enraizamento da desigualdade de gênero na divisão das tarefas de casa. ( HEILBORN, ARAÚJO & BARRETO, 2010, p. 02

Por ser uma profissão marcadamente feminina, pode-se estabelecer uma ligação dela com os baixos salários e a desvalorização profissional ratificando a ideia de que no mercado de trabalho as diferenças entre os gêneros também determinam diferenças nos salários e nas carreiras escolhidas, pois as mulheres acabam por seguir carreiras tidas como femininas ( como a educação ) e menos valorizadas socialmente.


REFERÊNCIAS:

* CEMIN, A. et al. Imaginário de gênero e violência em Porto Velho. Revista do Centro de Hermenêutica do Presente. Porto Velho, ano 1 , n. 128, jan. 2003. Disponível em: <http://www.unir.br/~primeira/artigo128.html>. Acesso em: 03 out 2011.
*  HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Andreia (orgs). Gestão de políticas públicas em gênero e raça/GPP-GeR: módulo 2. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Gênero: Uma visão geral em nossa sociedade - Módulo 2

A cada ano, o gênero, infelizmente, ainda é utilizado para determinar a organização social do espaço público e privado. Os gêneros, tanto masculino tanto feminino estão associados a estas instâncias de local, mas ligados a seus estigmas, esses formados culturalmente, socialmente etc. Isso gera uma conformidade em perpetuar que o homem está ligado a produção e a mulher a reprodução.

Seguindo esse pensamento, o espaço público, historicamente, era reservado ao homens como cidadãos e as mulheres confinadas ao mundo doméstico e ainda é. [...] O gênero tem para classificar as aptidões de homens e mulheres em diferentes áreas científicas. [...] ” ( Apostila 03, p. 02, parágrafo 2).

As assimetrias entre gêneros nos demonstra uma análise de homens e mulheres nos diferentes espaços da sociedade.

Estudiosos dizem que culturalmente, historicamente e cientificamente a mulher sempre foi considerada inferior ao homem. No mercado de trabalho vem crescido gradativamente e com pouca intensidade, em comparação ao homem. No espaço escolar, em alguns setores apenas se reduziu o nível de desigualdade, em outros, se aumentou. Na política, ainda há uma luta a se travar. Somente em 1932, foi quando as mulheres e o número de políticos do sexo feminino ainda é muito menor em relação ao dos homens.

No contexto familiar também existe hierarquia moral que estabelece posições sociais. [...] O modo como cada cultura constrói o gênero irá definir determinado padrão de organização das representações e das práticas sociais no mundo público e na vida privada... [...] ” ( Apostila 04, p. 02, parágrafo 2).

Tem-se percebido o crescimento no mercado de trabalho das mulheres, dividindo as despesas da casa com os maridos. Porém esta divisão de trabalho em casa, os afazeres domésticos não estão sendo divididos. Obrigando assim as mulheres a terem jornadas duplas, ou mesmo triplas, por causa da hegemonia masculina, vindo do machismo cultural latino. Homem não cuida de casa e ainda tem o poder de dominação, nas maiorias dos casos.

O sentimento de honra inspira um estilo de conduta máscula e idônea, conhecida como reputação. [...] Este imperativo social que coloca para os homens o domínio público (rua) e para a mulher o âmbito doméstico (casa) implica a “assexualização” da mulher. ” ( Apostila 04, p. 05, parágrafo 4).

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Singela Reflexão sobre os avanços feministas

Realmente as mulheres conseguiram avanços em suas demandas sociais. Com isso, os homens se beneficiaram mais ainda! Antes havia uma divisão de funções e nela as mulheres não se prestavam a determinadas funções. Hoje, elas, aos poucos estão se introduzindo em todas as funções e atividades sociais. Mas, esse avanço da forma que esta 'desenhado' é bom para as mulheres? É boa dupla ou até mesmo tripla função? As lutas, melhor, os avanços sociais conseguidos, permitiram, na maioria esmagadora, apenas a inclusão das mulheres nas áreas da sociedade nas quais elas julgavam estar sendo discriminadas. Entendo que para inicio foi bom lutar por inclusão; isso já é realidade... Mas no ponto que estamos o foco, penso eu, deve ser mudado. Não se trata só de inclusão ou não discriminação; a questão precisa ir além, precisa voltar-se, nesse momento, para a mentalização de que homens e mulheres têm a mesma parcela de responsabilidade na sociedade! Entendo que a igualdade de condições que a luta feminista esta conseguindo fazer realidade, esta muito voltada, tão somente, para a não discriminação de gênero, e me parece que o principal objetivo é igualdade de funções, fazendo com mulheres ocupem as mais diversas atividades sociais. Desse modo busca-se a aceitação e a naturalização de que mulheres podem e devem ocupar as mais diversificadas funções sociais. O problema, no meu entendimento, é que essa nova naturalização social de funções não deixar de considerar as funções 'naturais' atribuídas a elas por conta do gênero. E a nós homens? Bem, foi 'pedido' para 'aceitarmos' que a mulher atue na política, trabalhe 'fora', dirija caminhões, seja pedreira, seja empresaria, seja independente, que divida a conta..., tudo sem deixar de considerar que ser dona de casa, ser mãe, ser dedicada e todas as demais atribuições inculcadas como 'naturais' devido ao gênero, são Invariavelmente de sua responsabilidade!
Acredito que os avanços conseguidos são essenciais, porém nesse momento não devemos lutar por aceitação e não discriminação tão somente. Incutir que igualdade não se refere somente à aceitação e à não discriminação; vai além, e talvez nesse momento, seja o ponto crucial; pressupõe responsabilidades iguais em toda e qualquer atividade social, acima de tudo superar de vez a noção de divisão social do trabalho baseado no gênero(homem/mulher).

Paulo Cesar S. Rodrigues
Aluno do curso de Pós graduação de Políticas Públicas Gêneero e Raça -UFES



referencia:
HEILBORN, Maria Luiza; ARAÚJO, Leila; BARRETO, Andreia (orgs). Gestão de políticas públicas em gênero e raça/GPP-GeR: módulo 2. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Novo Homem-Aranha é negro e de origem hispânica.

Postei essa novidade neste blog só para uma reflexão. Claro é uma grande vitória. Um herói do tamanho do Spider Man negro quebra muitos paradigmas, deixa um monte de gente com dor preconceituosa de cotovelo. Ouvi perto uma frase que me deixou abismado: "-só fizeram por causa do Obama...".


Mas meu objetivo é debater o seguinte tema: se o Homem-Aranha será negro - imagino - logicamente que a Mary Jane Watson será uma negra ou no mínimo hispânica. Estou muito curioso para ler como os malvados e terríveis inimigos do amigo numero um de Nova Iorque, farão essas violências contra a jovem que seria a donzela a ser defendida. Não sou contra a arte dos gibis, não sou contra o Homem-Aranha. Sou contra a má utilização das imagens  de negros e negras. Às vezes o que parece uma glória, por trás, pode ser também uma desgraça. Pensem nisso e vemos esperar quando sair esta revista de qualidade indiscutível.


Gostaria de deixar essas reflexões para serem debatidas. Penso que é uma faca de dois gumes.


Pedro Paulo Barbosa Carvalho - Grupo 3 - Cachoeiro de Itapemirim - ES
Marketeiro e Publicitário





segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pesquisa revela país rico em preconceito

     Dados estatísticos de fontes confiáveis são sempre bem-vindos ! Assim, em reportagem intitulada "Pesquisa Revela um País Rico em Preconceito",   do jornal A Gazeta, de 23 de julho, são relatados os resultados de uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no dia anterior. Seguem alguns  dados:

* Para 63% dos entrevistados,  a cor da pele influencia na  vida, sendo o impacto maior no trabalho;
* Para 65%,   a cor e a raça repercutem no convívio social;
*`Para 68,3%, a cor e a raça interferem na relação com a justiça e a polícia.

     Em meio aos dados e  números citados, algumas vítimas do preconceito com ocupações diferenciadas ( manicure, juiz, vendedor de picolé, deputado estadual...) se manifestam nos depoimentos:  "Pessoas até me olhavam de lado.", " Acharam que eu poderia assaltar." , "A visão é de que negro não pode ascender.", "Era sempre o suspeito. ",  "Só quem já vivenciou sabe o impacto de uma atitude racista em sua vida." Este último depoimento me fez recordar as  frases: "Uns (umas) não veem o racismo e o sexismo que outros (as) vivem. Uns (umas) são considerados (as) mais iguais que outros (as)".
     A reportagem remete-nos ao mito de democracia racial (já relatado neste blog), pois expõe uma realidade que nós, brasileiros (as) insistimos em negar. Afinal, é mais fácil propagarmos o mito do que encararmos nossos preconceitos, atitudes racistas e nosso racismo velado.
     "Preconceito: quem disse que ele não existe no Brasil !"

Giovanna C. Werneck

sábado, 30 de julho de 2011

Breves reflexões sobre o mito da democracia racial

Não podemos deixar de problematizar a questão do mito da democracia racial, que exalta a diversidade brasileira,  a vivência  tida como pacífica de grupos e raças diversas  no extenso território brasileiro, porém  em detrimento do respeito à diversidade humana e da crítica às desigualdades, o que leva a uma desigualdade de oportunidades e de resultados.  Desta maneira, a valorização da diversidade e a negação das desigualdades advindas do mito da democracia racial produz concepções e políticas públicas que pensam em garantir a cidadania apenas a partir  da valorização das expressões culturais de grupos e raças historicamente discriminados. Assim, vemos nas escolas (ditas laicas, por sinal) o cumprimento da Lei 10639/03 apenas nas manifestações de valorização da cultura afro-descendente (e só no dia 20 de novembro). Diz-se com isso, que a escola colabora na desconstrução de preconceitos e paradigmas de discriminação baseados no conceito hierarquizante de raça. Afinal, preconceituosos são os outros e o mito da democracia racial dá conta de estabelecer a utópica convivência pacífica entre as raças (mas deixa de lado a questão da desigualdade de oportunidades, do racismo mascarado, do preconceito velado).
Se os discursos  produzem verdades que legitimam determinadas práticas,  a valorização e desvalorização de  grupos sociais são construídos historicamente, não são naturais, portanto podem ser desconstruídas. Citando Nelson Mandela, “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, sua origem ou religião. Para odiar e discriminar, as pessoas precisam aprender e se elas podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.”
Desta maneira, é urgente a construção de uma sociedade em que a justiça consiga abarcar tanto as reivindicações de igualdade social quanto as de reconhecimento das diferenças, pois o que encontramos hoje é o caráter contraditório dos discursos da modernidade capitalista que, por um lado, afirma a liberdade e a igualdade e, por outro, nega as possibilidades de acesso para determinados segmentos discriminados historicamente devido a suas diferenças e ao não-enquadramento nos padrões ditos normais de comportamento e pensamento. Assim, a justiça social pressupõe não só a redistribuição de riquezas, o caráter econômico, mas o reconhecimento e aceitação das múltiplas subjetividades e diferenças.

Giovanna Carrozzino Werneck